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| Segundo a Transparência Internacional, o caso Master exemplifica a infiltração de práticas ilícitas no sistema financeiro e a fragilidade dos mecanismos de controle Foto: Werther/werther |
O levantamento divulgado nesta terça-feira, 10, é o principal indicador mundial de percepção da corrupção no setor público. De acordo com a Transparência Internacional, os resultados mantêm o Brasil distante de níveis observados em países com melhor desempenho, como Dinamarca (89), Finlândia (88) e Cingapura (84), que lideraram o ranking.
O relatório destaca ainda uma tendência alarmante de aumento na percepção da corrupção em países democráticos, abrangendo desde os Estados Unidos (64), Canadá (75) e Nova Zelândia (81) até países europeus, como o Reino Unido (70), a França (66) e a Suécia (80).
Em paralelo ao IPC, a organização divulgou o relatório Retrospectiva 2025, que aponta agravamento da infiltração do crime organizado no Estado brasileiro e cita casos de macrocorrupção como os esquemas do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) e do Banco Master. A ONG afirma que as investigações expuseram falhas estruturais no sistema financeiro e na advocacia, setores apontados como estratégicos para o avanço de práticas ilícitas.
O documento também destaca o aumento do volume de emendas parlamentares, que atingiram valores recordes e ultrapassaram R$ 60 bilhões no orçamento de 2026, consolidando o controle do Legislativo sobre parte significativa dos recursos públicos. Segundo a ONG, o fenômeno representa um movimento de “captura orçamentária” que se estende a estados e municípios.
O relatório menciona ainda suspeitas envolvendo contratos de alto valor firmados pelo Banco Master com escritórios de advocacia ligados a autoridades do Supremo Tribunal Federal e defende apurações independentes sobre o tema. Procurado, o Master afirmou que não irá se manifestar sobre a menção no documento.
Recomendações
Dado o resultado brasileiro, a Transparência Internacional apresentou um conjunto de recomendações voltadas aos três Poderes para conter o avanço da corrupção e fortalecer a integridade institucional.
Ao Executivo, a ONG pede transparência na execução orçamentária e na distribuição de emendas, além do fortalecimento das investigações baseadas em inteligência financeira. A entidade também defende critérios técnicos nas nomeações para agências regulatórias e o cumprimento de compromissos internacionais de combate à corrupção.
Para o Judiciário, o relatório propõe a criação de um código de conduta para o Supremo Tribunal Federal, com regras sobre impedimentos, conflitos de interesse e transparência de agendas. Recomenda ainda a redistribuição do inquérito do Banco Master, a eliminação de supersalários e a celeridade nas investigações de macrocorrupção, como os casos Master e INSS.
Já o Legislativo é instado a aprimorar mecanismos de controle das emendas parlamentares, regulamentar o lobby e revisar o Estatuto da Advocacia para incorporar padrões modernos de integridade. A ONG também sugere a instalação de uma CPMI do Banco Master e a retomada de projetos voltados à prevenção da lavagem de dinheiro e à corrupção privada.
Apesar das recomendações, segundo Alexandre Camanho, Subprocurador-geral da República e coordenador da Câmara de Combate à Corrupção do Ministério Público Federal, a instituição não recebeu qualquer advertência por conduta equivocada. “As recomendações de anos anteriores já estão implementadas. A única novidade é um alerta para as eleições, e estamos aprimorando as estruturas de GAECO e anticorrupção para garantir eficiência na atuação”, disse.
A ONG também apontou avanços como a atuação da Receita Federal e do Ministério Público em operações baseadas em inteligência financeira, entre elas a Carbono Oculto, voltada ao combate à lavagem de dinheiro e à sonegação fiscal. Também cita como positivo o controle ampliado de emendas e a rejeição da “PEC da Blindagem” no Senado.
O Brasil figura entre países como Sri Lanka (35) e Argentina (36), com desempenho semelhante no ranking. Desde 2015, o país permanece abaixo da média mundial e regional.
CGU questiona metodologia do índice
Em nota, a Controladoria-Geral da União (CGU) afirmou ser importante esclarecer limitações metodológicas do IPC e destacou que o indicador não mede a ocorrência real de corrupção, mas a percepção de grupos específicos, como executivos e analistas. Segundo o órgão, variações no ranking “podem ocorrer sem que haja mudança efetiva na atuação do Estado ou no nível real de corrupção”.
A CGU afirmou ainda que o índice “não reflete a percepção da população em geral e não deve ser usado isoladamente como diagnóstico amplo da realidade institucional de um país”. Para o governo, avaliações baseadas apenas em percepção podem levar a interpretações equivocadas, ignorando avanços em transparência e controle.
O órgão citou o caso do INSS como exemplo de um paradoxo: “foi este governo que identificou o esquema, promoveu investigações, instaurou processos administrativos, realizou prisões e iniciou o ressarcimento aos aposentados, que já se aproxima de R$ 3 bilhões”. A CGU afirmou que as fragilidades apontadas no relatório foram identificadas nas investigações e estão sendo corrigidas.
A nota também criticou a divulgação simultânea do IPC e da Retrospectiva 2025, que, segundo a CGU, pode induzir o público a associar a nota do índice a fatos narrados no relatório, “inclusive episódios ocorridos após o período de coleta das pesquisas”.
O órgão destacou ainda a coordenação entre os Poderes para fortalecer a transparência e rastreabilidade das emendas parlamentares e lembrou que auditorias recentes alcançaram 72 entes federados e 100 organizações da sociedade civil, com avanços na integração de sistemas e no acompanhamento dos gastos públicos.
A CGU conclui que “o aumento das investigações e da transparência não significa mais corrupção, mas maior capacidade do Estado de enfrentá-la de forma efetiva”.
Dez países mais bem avaliados:
- Dinamarca - 89 pontos;
- Finlândia - 88 pontos;
- Singapura - 84 pontos;
- Nova Zelândia - 81 pontos;
- Noruega - 81 pontos;
- Suécia - 80 pontos;
- Suíça - 80 pontos;
- Luxemburgo - 78 pontos;
- Holanda - 78 pontos;
- Alemanha - 77 pontos.
Dez países com pior avaliação:
- Coreia do Norte - 15 pontos;
- Síria - 15 pontos;
- Nicarágua - 14 pontos;
- Sudão - 14 pontos;
- Eritreia - 13 pontos;
- Líbia - 13 pontos;
- Iêmen - 13 pontos;
- Venezuela - 10 pontos;
- Somália - 9 pontos;
- Sudão do Sul - 9 pontos.

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